Massinha, massa, argamassa, matriz



Eu estava no trabalho quando recebi uma foto sua, L.o, já deitadinho em casa, com um ostensivo hematoma azul-arroxeado na testa, depois de ter trombado num colega da escola como se não houvesse amanhã. Um pouco acima do galo assustador, havia outro, vermelho-coral chamativo, feito de massinha de modelar, robusto e altivo, engraçadíssimo na situação. Na foto seguinte, L.a., contente com o seu próprio galo de modelar, tratava de equilibrar o dito cujo na testa. Imagina o irmão ganhar dois cocorocós e ela ficar de mãos abanando? Nem pensar.

Eu não sabia se me preocupava com o roxo ou se ria do galinheiro que as fotos anunciavam. Essa é sua avó, filhos. A pessoa que transforma machucado em circo, queda e roxo em escultura de brinquedo, pedra em leite de pedra. Que faz galo de massinha para um neto e dribla o ciúme do outro com mais massa ainda, porque contorcionismo não conhece limites.

É ela quem aceita tudo que vocês oferecem para comer, até o que não gosta, porque diz que a generosidade infantil deve ser estimulada. Que ri disfarçadamente quando vocês trocam sílabas, mas faz questão de mostrar como uma palavra deve ser pronunciada. Que salva a mamãe nos milhares de pequenos incidentes domésticos com humor e jogo de cintura. Essa é a sua avó, filhos, tirando uns coelhos de última hora de umas cartolas sem fundo.

É a vovó que se esmera para fazer o feijão mais gostoso do planeta, que curte dobrar suas roupas pequeninas recém-tiradas do varal, que ensinou vocês a xingarem os outros com o infame “bunda seca” e baixa as bainhas das calças curtas, satisfeita. Os netos cresceram!

Se, antes, vocês eram a opção incomum da filha esquisita, que ela aceitava da maneira mais respeitosa do mundo, agora o jogo virou. Já não sou eu que leio ou assisto as reportagens sobre adoção, adoção tardia e adoção conjunta de irmãos, é sua avó que as acompanha com dedicada atenção. Acho que hoje ela se emociona mais do que eu quando escuta sobre um processo que se encaminha, sobre uma criança que chega ou uma família que se formou por adoção.

Sabe, L.a, um dia você vai perceber o quanto ela se comove toda vez que você se refere à “nossa casa”. L.o, daqui a algum tempo, você vai reparar como ela fica orgulhosa quando alguém o considera encantador. É tão sensacional ter proporcionado esse encontro entre vocês que eu nem sei como começar a explicar. Se eu fiz alguma coisa certa na vida foi isso.

Sua avó, filhotes, é tão grande e tão generosa que raramente consigo escrever sobre ela, porque nenhum papel parece dar conta da missão. Nenhuma palavra, mesmo as compridas, conseguem abarcá-la. Demorei a compreender que só na fresta das histórias comuns da rotina é possível entrevê-la, porque não se pode olhar diretamente para o sol.

E é claro que não viria de mim, mas de vocês, a melhor definição da minha mãe. Filha, você fez um desenho de simplicidade estupenda, em que a vovó ocupa quase todo o papel e, no interior dela, florescemos vívidos, vistosos, cheios de esperança, possíveis. No futuro, vocês vão entender como ela salvou minha sanidade e a de seu tio, sendo a bússola e o farol de nossas biografias, porém, o mais importante vocês já sabem agora: da fertilidade do solo-raiz, do conforto do colo, da criatividade dos galos de massinha, do amor nos grãos de feijão.

Penso de novo em seu desenho, filha, e ele continua sendo um dos espelhos mais fiéis que já conheci. É mais que o retrato de uma mãe ou de uma avó, é a pintura de uma matriarca. Arca. Pessoa-matriz, casa, templo, tempo e eternidade.

Somos porque ela é.


Foto: Arquivo pessoal. Mamãe, Vovó e Tio F.



Presente



L.o., hoje você realiza o milagre de soprar quatro velas e acender quatro luzes. Troca de idade como um menininho que aprendeu a rir e parece cada vez mais à vontade em seus espaços – casa, escola, parque – mas que permanece, em essência, sério e observador. No momento, você está bastante interessado em desvendar os estados de espírito das pessoas em volta. O cantor do rádio soa triste, o pedestre ao lado tem o ar pensativo, a moça da farmácia está mesmo brava? Por enquanto, entonações e sembrantes são seu grande objeto de curiosidade e você tateia o mundo por meio de espelhos humanos.

Hoje você fala muito mais e melhor do que quando chegou, conta histórias, ensaia tiradas de humor, mas ainda temos um longo caminho a percorrer até você conseguir verbalizar e lidar com as frustrações comuns do cotidiano. Seus rompantes de fúria ainda assustam os vizinhos e mais de uma vez já pus você à força no carro e saí dirigindo sem destino, até que o balanço do veículo conseguisse te acalmar, porque nada mais funcionava no universo.

Você também é o garotinho que se amarra em atividades manuais, que recentemente viciou de verdade no primeiro desenho animado e está sempre mais alerta à noite que pela manhã. Se dependesse da sua vontade, não haveria grandes refeições, somente pequenos bocados ao longo do dia inteiro. Heróis vão e vêm, mas nenhum ainda tirou o Homem-Aranha do pódio. Você demonstra ter uma boa memória musical e noções de ritmo notáveis para a sua idade, sendo as canções natalinas suas favoritas.

No teatro, as peças amadas são as que mais te inspiram medo. A última foi “João e o Pé de Feijão” e o esmero na feitura do gigante fez com que você se escondesse embaixo da poltrona. Mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, vira e mexe você lembra dela com admiração.

Aos quatro anos, você prefere gatos a cães, tomate a batata, chá a refrigerante. Vai entender.

Como irmão, você segue companheirinho dedicado à L.a e admirador invicto do J.o, apesar da distância, porém, pouco se refere aos demais, mencionados apenas ocasionalmente. Ainda não perguntou a respeito de sua mãe biológica e aparentemente não tem muitas lembranças dos tempos de abrigo.

É o xodó da vovó, o orgulho masculino do tio, o carinho do padrinho e o bebezão do babá (sim, um babá, não é erro de digitação).

Para sua mãe, você se mostra uma pessoinha incrivelmente persistente, o que às vezes pende para a perseverança, às vezes para a teimosia, os dois lados da mesma moeda da obstinação. Tenho me esforçado para torná-lo mais flexível, sem muito sucesso até agora. De todas as pessoas do mundo, você é das poucas que reconhece de imediato quando não estou sendo totalmente honesta ou inteira; a única que não tem qualquer receio em anunciar isso na minha cara. O que é inesperado, surpreendente e revigorante. De muitas formas, você permanece para mim uma incógnita apenas parcialmente desvendada, muito L.o para ser descoberto no caminho. Tenho a impressão de que você será um grande mestre na minha jornada pela vida, que, por seu intermédio, terei de fazer escolhas profundas, rever conceitos, reconstruir padrões. Também serei eu a água resistente que vai furar suas pedras duras e, juntos, talvez, quem sabe, lapidaremos um ao outro até virarmos algo além.

Feliz aniversário, filho. Obrigada por existir, resistir e nos escolher também.


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Mágica

Eu dormi. Eu simplesmente dormi na noite em que a Fada do Dente deveria chegar, resplandecente, para trocar o incisivo da L.a por R$ 1, moedinha very aguardada. Na manhã seguinte, meus amigos, pensem na decepção estampada no semblante da garotinha, até que a vovó lança uma jogada magistral: A CULPA É DA GREVE DOS CAMINHONEIROS!!! É claro que a Fada do Dente teria dificuldades para chegar. Nem com a força das asas ela conseguiria, sozinha, atravessar longas distâncias. Dependendo do lugar, ela tem até que pegar avião. Sério, caminhoneiros? Atrapalhar a Fada do Dente? Agora vocês foram longe demais.
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Dia das Mães


Feliz dia do colo. Feliz dia do deita criança, deita cachorro, deita gato e papagaio. Feliz dia de trocar o nome de todo mundo. Feliz dia do desenho animado com cafuné. Feliz dia do programa adulto que jamais será assistido. Feliz dia do evento que vira queda, machucado e colo de novo, acontece, uai! Feliz dia do short molhado de xixi. Feliz dia da comida especial que a criança não aprova e vira uma montanha de batata palha. Feliz dia do presente que a vovó ganhou e que fez sucesso entre os pequenos. Feliz dia de fazer nada e acontecer tudo. 


Mas, principalmente, feliz dia para a gente, filhos, que estamos comemorando a finalização do processo de adoção. O juiz reconheceu o que os astros, as cartas e o amor já diziam em três vias reconhecidas no cartório. Parabéns, L.a, parabéns, L.o! Feliz nosso dia.

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Des-vendar



Minha prole, há um fenômeno muito esquisito que acompanha os pais em uma adoção, a quantidade de estranhos envolvidos no processo. Desconhecidos traçam o perfil dos candidatos, avaliam a casa em que a criança ou adolescente vai morar, fazem os contatos telefônicos, apresentam os membros da nova família, acompanham a adaptação, preenchem relatórios, dão pareceres. São misteriosos os rostos que assinam os papeis das nossas vidas. Claro que não dá esperar que os avaliadores sejam amigos nossos, deve mesmo haver distanciamento para examinar cada caso e dizer os “nãos” e “sins” necessários. Mesmo assim – que sensação bizarra! – o juiz que vai bater o martelo final e dizer se estaremos juntos para sempre sequer me conheceu pessoalmente, já que estamos em cidades diferentes. Para mim, isso chega a ser surreal.

Ainda bem que as esquipes técnicas que nos acompanham estão claramente empenhadas em fazer tudo dar certo, oferecendo informações, apoio e gentileza em um grau que não dá para medir e pelos quais serei eternamente grata.

Eu estava pensando neles esses dias, nos desconhecidos com quem cruzamos ao longo do caminho e que foram/são essenciais na caminhada, quando me dei conta que, do ponto de vocês, crianças, ninguém jamais foi tão estranho, exótico e obscuro quanto… eu.

Sua mãe foi a desconhecida-mor, alienígena súbita que desembarcou em seu mundinho sem aviso prévio. Eu era a incógnita absoluta. Verdade que nos falávamos por telefone e internet, mas nada poderia prepará-los para a esquisita que chegou para levá-los para longe das pessoas e lugares conheciam. Ninguém foi tão radical e despótico quanto eu, independente das intenções envolvidas. Recém-nascidos pelo menos reconhecem as mães pela voz e pelo cheiro, nós não tínhamos nem isso. De repente, impôs-se a vocês um convívio inesperado, intenso e inédito, regido por uma estranha cheia de novas regras, que ambos tiveram de aprender a lidar a toque de caixa.

Depois que me dei conta disso, fiquei com uma vergonha danada de um dia ter minimamente questionado “os meus estranhos”. Motivos de dúvidas na verdade tiveram vocês, com toda razão do planeta.

Daí me nasceu uma vontade tremenda de que nunca, nunca, nunca mais fôssemos desconhecidos. De que eu compreenda as avenidas e os meandros dos meus filhos, mas que vocês também descubram sobre mim, o máximo que puderem. Verdade que permanece certa “hora da zona morta” entre indivíduos, graças a Buda, porque mistério sempre há de pintar por aí, mas quero muito que vocês adivinhem quando estou sorrindo do outro lado do telefone, que experimentem um prato novo e tenham certeza de que vou gostar dele, que escolham para mim um presentinho bobo na loja de conveniência e acertem na mosca. Desejo intensamente conhecê-los em cada fase da vida, mas também quero muito que vocês me desvendem, que adivinhem minhas rabugices antes mesmo de eu cometê-las, que me saibam, de maneira a nunca mais ser uma interrogação em sua história.

Filhos, espero à beça ser de vocês.


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O que dou, o que recebo



Você está aprendendo a ler e a escrever, filha, com uma letra firme e precisa, surpreendente para uma criança que não foi à pré-escola. Decidi deixar uns bilhetes para vocês dois, à noite, enquanto estou no trabalho, como estímulo à leitura; desenhos para o L.o., pelo menos uma frase para a L.a. No papel (literalmente), parecia o plano perfeito.

Mas o primeiro dia foi logo um desastre. A mamãe, essa boba, deveria saber que desenhos e figurinhas ainda valem mais que palavras, nessa fase. O bilhete do L.o pareceu mais vistoso que o seu, filha, e você fez questão de mostrar seu desagrado à vovó.

Na manhã seguinte, já sabendo que frase nenhuma foi decodificada, abordei o assunto pelas beiradas, como quem não quer nada.

- E aí, filhota, recebeu meu bilhete?
- Sim.
- E você leu?
- Não.
- Ué… e o que você fez com o envelope?
- Coloquei debaixo do travesseiro e dormi com ele.

Pausa para o coração dessa mãe se recuperar do desfile da Acadêmicos dos Grandes Momentos.

As palavras sobre o papel não viraram uma frase, elas foram além, ao longe, ao fundo, ao âmago das coisas sussurrantes. Chegaram até o lugar em que as crianças deitam a cabeça sobre o sono e o sonho. Aportaram na confiança e iluminaram o negrume da noite assombrosa.

No bilhete, um singelo “Eu amo vocês”. Em resposta, um papel antigo viajando no interior de uma garrafa de vidro por milhares de léguas de vida. 


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Onírica


Filha, anos atrás, sonhei que estava fazendo um cruzeiro e o navio tinha parado em uma cidade costeira, colorida e animada. Eu percorria praias e mercados locais, observando tudo, me divertindo à beça. Mas, no meio da tarde, perdi a hora do embarque e vi o barco partir sem mim. Fiquei só, em um lugar desconhecido, sem bagagem e sem dinheiro. Não me desesperei e comecei a caminhar em busca de uma solução improvável. Andei por horas a fio até o início da noite, quando fui cercada por um azul ainda não tão escuro, espetacular. Pelas casinhas brancas pousadas nas encostas, acessíveis por escadas de pedras que eu subia sem hesitar, soube que eu estava numa cidade grega. Lembro de me perguntar por que não se viam mais fotos noturnas da Grécia, tão bonito era o conjunto.

Subi até chegar em frente a uma casa parecida com as outras. Bati palmas e um homem abriu a porta. Eu já o conhecia, mas, no sonho, ele era bem mais jovem do que em minhas lembranças e não sabia quem eu era. Comecei a contar o me ocorrera quando uma voz feminina interrompeu o diálogo:

- Quem está aí?

- É uma moça. O navio a deixou a na praia e ela não tem onde ficar – resumiu o homem.

- Deixe ela entrar.

Nessa hora, a mulher veio até a porta e eu a vi sob a luz do interior da residência. Era a vez de me identificar:

- Sou eu, vó. Sou eu a pessoa que você deixou entrar sem saber quem era.

Aqueles eram meus avós paternos. Ele já falecido na época do sonho, ela ainda não. Sempre nutri amor e admiração pela minha avó, mas naqueles dias vivíamos um período estranho e confuso, que podia gerar uma grave fissura entre nós. O sonho apaziguava os ânimos, ao me lembrar da natureza essencialmente generosa e altruísta da minha avó, que tão acertadamente tinha nome de céu.

O tempo passou. Ela se foi, deixando muita saudade, uma quantidade enorme de filhos e um exemplo de lucidez que poucos deles seguiram. Guardei a história do navio e da costa com respeito e gratidão, no baú das memórias não ditas.

Até que, bem recentemente, vendo umas fotos para o trabalho, me deparei com imagens de cidades gregas. Uma delas bem parecida com a do meu sonho, cheia de escadas e casas brancas em frente ao mar. Na legenda, havia o nome da cidade. O seu nome, filha.

Claro que é uma coincidência, que o inconsciente cria os cenários mais adequados para as ações que a mente precisa representar, sem adivinhar futuros. Mas na fartura imaginativa que as coincidências provêm aos humanos, é uma delícia cogitar ser você, filha, o lugar de me perder e de me achar, onde, depois de cruzar oceanos de distância, encontro uma porta aberta acolhedora, a da própria família. Enseada de casinhas brancas, onde só cabe o essencial, em que o mar esculpe a pedra e a noite me abraça, estonteante.

Em tempo: seu nome, filha, significa “aquela que veio da cidade”.

Minha cidade, meu porto, minha viagem, minha aventura. Combina.



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Resposta


Filhos, quando eu estava no encontro preparatório para pais adotivos, durante o processo de habilitação, muitos dos participantes já se mostravam extremamente angustiados com incerteza da espera na fila, ainda que a espera propriamente dita sequer tivesse começado. Algo compreensível, na verdade. Uma porção deles vinha de uma longa e desgastante batalha pela gravidez e a grande maioria ansiava por um bebê, o que significava aguardar por seis ou sete anos o filho sonhado. Nesse ritmo, o tempo não era mesmo um aliado.

Mas apesar de compreender plenamente os motivos dos demais, eu rejeitei aquilo para mim. Resolvi não sofrer enquanto esperava vocês. Não xinguei o sistema, não pressionei os funcionários da Vara toda semana, não comprei roupas ou móveis e, quando os amigos perguntavam a respeito, respondia simplesmente que a adoção ia demorar e mudava de assunto. Sua avó, no Natal, arriscava, “será que ano que vem haverá uma criança para comemorar com a gente?”. “Acho que ainda não” era minha resposta de praxe.

Entretanto (ah, os poréns) para que meus planos dessem certo e eu não mergulhasse no poço escuro do relógio do aguardo, tive de renunciar a qualquer expectativa. Eu simplesmente não imaginava sua chegada, seu barulho, sua presença. Salvo por raras exceções, como a ideia de que minhas crianças seriam negras e mais velhas, eu não desenhava vocês nos ambientes da casa ou da vida. Que viessem quando fosse a hora, que chegassem com as feições e jeitos que tivessem. Sempre me vinha à cabeça uma música que falava de expectativas desleais e, bem, eu não queria ser desleal com vocês. Aproveitei o tempo para ler bastante sobre história de adoção dos outros, para tirar dúvidas e partilhar o que ia aprendendo.

Claro que a minha decisão gerou ganhos e perdas, como toda escolha acarreta, mas essa foi a trilha que percorri, a de aguardar por dois alguéns, tentando não esperar muito deles (e olha que, ainda assim, eu me espatifei por imaginar só crianças mais velhas e adotar um carinha de fraldas). Na época, tratava-se de abrir espaço para o que vem, sem saber quem virá, nem quando.

Foi aí vocês chegaram, até mais cedo do que eu previa. Aterrissaram feito turbilhão, redemoinho de gente que tirou tudo do lugar, pelo menos até que eu me acostumasse a elevar a vida ao quadrado. Caos define bem nossos primeiros meses juntos, nem sei dizer como nos entendemos.

Mas o tempo, essa senhora de saias longas, é pródigo e costuma responder no inesperado dos dias.

Hoje, quando vocês estão brincando no cômodo ao lado, na varanda ou no pátio, e eu só ouço suas vozes infantis, comentando como a pintura do outro está bonita, como a formiga carrega a folha gigante ou sobre o herói favorito – nas horas em que eu mais escuto que vejo – é então que alguma coisa me diz que era isso o que eu estava procurando sem saber o nome. O que eu intuía na névoa da não expectativa. A resposta chega e me explica o que eu tateava aleatoriamente. Me acha. Ela dança a minha volta ao som de gente crescendo, de conversas ao fundo, risadas entre os vasos de planta. Era a música da voz de vocês que eu precisava encontrar.


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NÃOS


Filhos, não, vocês não vieram depois de tentativas sucessivas e frustradas de gravidez, não substituíram o luto por uma gestação que não vingou, não são o filho biológico que não veio. Nossa história é de adoção mesmo antes de vocês chegarem, ainda no marco zero das ideias vindouras. Vocês são, desde o princípio, a aposta número um, meu plano A.

Não, amores, não há entre nós esse lance estranho de “dívida de gratidão”. Nossas vidas se entrelaçam na trama da reciprocidade, da partilha, do presente mútuo. O placar atingido é o do empate, estamos quites na esfera do amor, o que é uma regalia sem igual. E se, no futuro, alguém sugerir que vocês “me devem” algo, deem uma gargalhada bem gostosa e respondam eu só cobro dos outros bom humor e cortesia, o resto dos boletos está em dia, obrigada.

Não, filhos, não pensem demais em como seria se as escolhas tivessem sido outras. Tive o privilégio de trazer para casa duas crianças extraordinárias, lindas, de gênio forte, engraçadas e interessantes, muito mais do que eu podia pedir ou imaginar. Já vocês, com certeza, poderiam ter ganho uma mãe melhor, mas com o tempo eu vou pegando as manhas e a gente vai crescendo juntos, tentando acertar, driblando as adversidades, construindo a biografia peculiar da nossa jovem família (que completou 365 voltas em torno do sol), no sonho de dar certo, na certeza de que cada um dá o seu melhor.

E não, minhas riquezas, em termos de família, não estamos fazendo feio, de modo algum.

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Travessia


Filho, filha, nos últimos tempos, muita coisa mudou. Me mudou. E então eu compreendi.

Entendi que preciso lidar de frente com o sofrimento pelo qual vocês passaram antes da adoção. Seja aquele concreto, do qual eu tenho dados e indícios; seja o especulativo, que não pode ser validado, mas que resiste como provável.

Tenho de mergulhar no universo da escassez, da ausência, da falta de todos os tipos. Compreender a lógica da desintegração do mundo conhecido, da instabilidade, da compensação e do improviso. Tentar, mesmo sabendo ser impossível, me colocar no lugar de duas crianças tão pequenas, em abrigos, sem mãe, sem pai, contando apenas com os irmãos também miudinhos, no meio de dezenas de estranhos. Na saúde e na doença, no medo e no escuro.

Isso sem contar o tempo passado com sua família biológica, tão ou mais difícil quanto o abrigamento.

Conscientemente, até agora evitei lidar com a totalidade do que vocês enfrentaram sozinhos. Me preservei de uma dor infinita, porque a considerava sem finalidade real. Mas eu estava profundamente enganada. Ela tem de acontecer, ela deve vir. Esse é exatamente o rito de passagem pelo qual preciso passar para chegar à fase seguinte da nossa relação. Eu só não estava ainda preparada para ela.

Mas, finalmente, eu estou pronta não só para saber, mas para viver a história de vocês, filhos. Para a queda e a superação.


Vamos, vamos chegar ao outro lado.


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Traço


L.a, L.o, anos atrás, comprei um livro sobre runas e me enamorei por uma em especial. Li que o sentido dela se perdera nas dobras do tempo e ninguém mais sabia o que significava, por isso, ela passou a ser interpretada como enigma, sinônimo do desconhecido. Achei a coisa instigante e quis fazer uma tatuagem com o símbolo. Mas aí a insegurança resolveu dar o ar da graça. Bateu o receio de tatuar em definitivo algo de origem duvidosa, que, no futuro, talvez um pesquisador dedicado descobrisse ser ruim ou banal.

Meses depois, me estapeei. Que covardona eu era! A runa reunia tudo aquilo que eu deveria deixar de temer: o desconhecido, o ambíguo e o permanente. O que a runa queria dizer? Ora, eu poderia criar uma resposta nova todo dia, dependendo da pessoa a perguntar.

Aí, enfim, quando decidi traçar o desenho no corpo, o imponderável se impôs e o livro apenas sumiu, desapareceu sem deixar rastros, me deixando com o projeto inacabado. Quem nunca teve um desses? De quantos quases se faz uma biografia?

Assim foi, até anos depois a vida me restituir a tatuagem em suspenso, devolver a hora do sim: o mistério que enlaço, o medo que perco. O sentido novo que atribuo todo dia ao próprio dia. O significado banal ou grandioso. O que está sobre e sob a pele. Vocês dois, minhas belezas desenhadas, são a surpresa que as runas me trouxeram. Meu daqui para sempre, círculo perfeito no corpo do tempo, sem começo, nem fim.


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